Comportamento

O som como luz

Levei os meninos ontem ao Parque Olímpico na Barra para assistir a uma partida de futebol de cinco. Os jogadores são cegos. Usam uma venda, para garantir que todos tenham o mesmo nada de visão, e ficam à procura do som da bola e das orientações do técnico. É o som que os guia. Por isso, nós, na arquibancada, temos que fazer silêncio. Difícil demais. Principalmente quando somos tomados pela angústia da proximidade do gol, quando a bola sobra na área e ninguém a encontra, e os jogadores dos dois times, ataque e defesa, ficam tateando o ar com mãos e pés para encontrá-la e tentar fazer ou impedir o gol. Quando a bola alcança a rede, o grito da torcida chega a ser escandaloso. Ainda mais considerando-se que era uma semifinal e o Brasil estava jogando. O juiz pede silêncio e no telão colorido aparece “Shhhhhhhhhhh”. A gente se cala. O fim do jogo, 2 a 1 para o Brasil, foi ensurdecedor. Parecia compensar o tempo de silêncio.

paralimpicos

A escuridão dos cegos sempre me impressionou. A mim e a muita gente. Nelson Rodrigues em A Menina sem Estrela (pág. 45), de 1967, fala sobre este seu assombro. José Saramago em Ensaio sobre a Cegueira, de 1995, pensou um mundo em que todos nos tornaríamos cegos. Sempre me pergunto o que aconteceu. Será que nasceu cego ou foi alguma doença ou acidente? Como ele reagiu? O que eu faria se fosse comigo? Nessa hora, todos se tornam heróis. Porque não vivem “apesar disso”, vivem para vencer desafios, exatamente como todos nós, só que com barreiras extras. E se tornam atletas, técnicos, especialistas, artistas, como mostraram  João Jardim e Walter Carvalho no encantador Janela da Alma, de 2001. A escuridão dos cegos talvez seja, sim, iluminada. 

Para muitos deles, a luz vem do som. Das palavras de um guia que lhes descreve o que está ao seu redor, no jogo, em casa, no passeio, no filme, surgem as imagens. E eles, então, passam a enxergar, só que com outros olhos, diferentes destes que usamos. Sem os guias, nossos heróis talvez vivessem na escuridão. (Super bonita a reportagem do Bom Dia Brasil de hoje sobre o comentarista de TV, Hilário Moreira.)

No Parque Olímpico ontem havia muito mais gente em cadeiras de rodas, com pernas mecânicas, sem um dos braços ou cegas. Fiquei me perguntando se para elas esse ambiente fazia o mundo ficar melhor. Sem tanta gente que, como eu, ficava pensando sobre as faltas delas. Curioso foi que os meninos em nenhum momento comentaram absolutamente nada sobre isso, nem me fizeram nenhuma daquelas perguntas que me fiz. Para eles, essa diferença não precisava registro. Pensei que talvez, em algum aspecto, o mundo possa estar mesmo ficando melhor.

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Mudança de vida

Braços abertos

Eufórica! Foi como eu terminei o dia ontem depois da recepção dos meus amigos para o blog. Não acreditei no calor e no carinho das quase 200 mensagens que recebi no Face e no site. Foram mais de 800 visualizações em menos de 24h, o que pra mim é um super sucesso. Ainda estou meio abobalhada.

Ajudou o fato de eu não ter criado expectativa nenhuma exatamente porque não planejei nada. Claro que já pensava em ter um blog há dezenas, há centenas de anos, mas nunca tinha conseguido responder às perguntas básicas: sobre o que, para quem, como se faz, com que ferramentas, qual o diferencial.

Até que ontem, acordei às 4h da manhã com uma energia diferente, uma disposição que não tinha há muito e comecei a pesquisar sobre o tema. (Tenho que dizer que também consultei horóscopos, tarots, runas, na internet mesmo, sobre se devia fazer um blog e todos só me davam recados positivos do tipo “é chegada a hora”, “faça, depois você resolve as dúvidas”.)

E quando os meninos saíram para a escola com o pai, eu troquei de roupa, às 6h30, pus o biquini e fui dar uma caminhada na praia. Quando cheguei, vi a areia toda lisinha, ainda sem pegadas, como se a praia mais querida do mundo fosse deserta e toda minha. O sol estava rosa e o céu azul coloria o mar até o branco da arrebentação. Uma coisa linda mesmo. Pensei, pensei, pensei.

Cheguei em casa, tomei um banho e o café da manhã com o Paulo. Me sentei na mesa da sala e redigi o post. Editei umas mil vezes até finalmente apertar o botão. Chorei quando publiquei. Não acreditava que finalmente tinha um blog. Não precisei esperar muito e os primeiros comentários chegaram e foram aumentando e as mensagens eram tão, tão, tão lindas, tão cheias de pensamento positivo que foram tomando conta de mim até o fim do dia quando minha mãe e minha tia apareceram aqui em casa, a gente tomou um vinho e brindou a esse dia marcante pra mim.

Uma prima de longe, muito querida,mas com quem não falo com a frequência que gostaria, me escreveu de manhã, pouco depois da postagem, dizendo que havia sonhado comigo. Que nós duas íamos a uma praia linda e que eu estava muito feliz, que foi um sonho ótimo, que ela até comentou com o marido. Fiquei impressionada como às vezes a energia é palpável. E senti como se me encontrasse.  De novo, muito obrigada por tanto carinho que vocês me mandaram ontem.

Carrego comigo

Carrego comigo
há dezenas de anos
há centenas de anos
o pequeno embrulho.

Serão duas cartas?
será uma flor?
será um retrato?
um lenço talvez?

Já não me recordo
onde o encontrei.
Se foi um presente
ou se foi furtado.

Se os anjos desceram
trazendo-o nas mãos,
se boiava no rio,
se pairava no ar.

Não ouso entreabri-lo.
Que coisa contém,
ou se algo contém,
nunca saberei.

Como poderia
tentar esse gesto?
O embrulho é tão frio
e também tão quente.

Ele arde nas mãos,
é doce ao meu tacto.
Pronto me fascina
e me deixa triste.

Guardar um segredo
em si e consigo,
não querer sabê-lo
ou querer demais.

Guardar um segredo
de seus próprios olhos,
por baixo do sono,
atrás da lembrança.

A boca experiente
saúda os amigos.
Mão aperta mão,
peito se dilata.

Vem do mar o apelo,
vêm das coisas gritos.
O mundo te chama:
Carlos! Não respondes?

Quero responder.
A rua infinita
vai além do mar.
Quero caminhar.

Mas o embrulho pesa.
Vem a tentação
de jogá-lo ao fundo
da primeira vala.

Ou talvez queimá-lo:
cinzas se dispersam
e não fica sombra
sequer, nem remorso.

Ai, fardo sutil
que antes me carregas
do que és carregado,
para onde me levas?

Por que não me dizes
a palavra dura
oculta em teu seio,
carga intolerável?

Seguir-te submisso
por tanto caminho
sem saber de ti
senão que te sigo.

Se agora te abrisses
e te revelasses
mesmo em forma de erro,
que alívio seria!

Mas ficas fechado.
Carrego-te à noite
se vou para o baile.
De manhã te levo

para a escura fábrica
de negro subúrbio.
És, de fato, amigo
secreto e evidente.

Perder-te seria
perder-me a mim próprio.
Sou um homem livre
mas levo uma coisa.

Não sei o que seja.
Eu não a escolhi.
Jamais a fitei.
Mas levo uma coisa.

Não estou vazio,
não estou sozinho,
pois anda comigo
algo indescritível.

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In: A Rosa do Povo, 1945 e
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa. São Paulo: Nova Aguilar, 2002

(Copiado do site A Voz da Poesia)

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Mudança de vida

Estreia

Há dois anos, tomei uma decisão que mudaria radicalmente a minha vida. Pedi demissão de um emprego bacana para passar um tempo com meus filhos, Antônio, de 6, e Pedro, de 3 anos. Era para ser uma parada breve, de um ano, mas enquanto eu me transformava o país também mudava e quando eu tentei me recolocar, já havia 11 milhões de desempregados, recessão, inflação, desinvestimentos e tudo ficou muito mais difícil. Enxuguei meus gastos ao máximo e mais uma vez me reinvento.

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